quarta-feira, 9 de julho de 2008

Arrumação


Fotos, recortes de jornais, revistas mostrando marcas de uso...Sento-me diante do móvel onde após anos de relaxamento resolvi fazer uma limpeza geral. Diante de mim está o grande espetáculo do tempo. Seria, por assim dizer, o tempo feito em objetos que já passaram...Não consigo saber por onde começar...Vou pegando a esmo as coisas que lá estão postas umas sobre as outras...A primeira foto já me causou lástima...Como me desfazer desse tesouro? Caem outras no chão e montam um caleidoscópio em preto-e-branco...Por onde começar? Algo me manda parar...Não vou conseguir, diz uma voz em minha mente. Você consegue, você tem que conseguir...Surge uma verdadeira batalha interior entre o sim e o não, o fazer e o deixar de fazer...Quais as possibilidades? Por que somos apegados ao passado? Por que simples objetos comandam nossa vida? Por que temos medo de perder o que já deixou de ser? Estão lá, empoeirados, talvez mofados, velhos amigos, companheiros que compartilharam dos meus dias. E eu recebi de mim mesmo a incumbência de destruí-los, de defenestrá-los. Pensei comigo: nos dias de hoje, temos a internet, se quero um assunto lá estão os sites de busca, se quero ver uma foto, uma reportagem, ler um comentário, tudo está lá. Por que guardar coisas que posso recuperar de uma forma mais limpa, mais organizada, que não toma espaço nos meus móveis, que não têm poeira....? É que queremos a posse...possuir algo nos dá poder...manter algo sob nossos pés, mesmo que não valha para nada, nos dá prazer...É o sentimento de um déspota que ama seu povo. Não posso fazer isso. Não posso evitar de deixar tudo como está. Sou um romântico e a perda me comove, me constrange...Qual de vocês, leitores, já não passou por isso? As próprias traças se fazem amigas numa hora dessas...Tudo está ali, protegido, guardado com esmero pelos dias que passaram. Tudo fica onde está: o primeiro número de Veja, exemplares de Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Revista do Rádio...fotos de amigos, de amores perdidos, instantes jamais esquecidos..recortes de jornais, da volta de Brizola ao Brasil...Quanta coisa está ali...Quanta gente que não está mais conosco, mas que está sepultada em capas de revistas, em páginas de jornais velhos e em fotos. Não vou ser um canalha da modernidade...Preservo e respeito a sinceridade dos que estão ali no meu armário. De repente, olho lá no fundo e vejo um selo. A efígie de Pelé. Nem sabia que ainda estava comigo. É um selo virgem, não há carimbo, comprei-o para guardá-lo...afinal, sou um colecionador de sonhos e de saudades.

Nenhum comentário: