Os anos de chumbo, paradoxalmente, construíram o melhor celeiro de músicos e cantores jamais vistos na história do Brasil. Sob uma forte oposição do governo militar, produziram-se pérolas de grande valor. Lembro-me disso: “ai, quem me dera saber, quem me dera um dia, voltar de novo à Bahia, Bahia do coração...” ou então: “...pé de avenca na janela, deixa o verde verdejar, vê se alegra tudo agora, vê se pára de chorar...”ou ainda: “...já tem nome de doutor e agora na fazenda é quem vai mandar. E seu velho camarada, já não brinca mais, trabalha...”. Ficaria aqui escrevendo trechos de memória, mas está tudo no ar, no éter: as vozes dos cantores – muitos até já se foram – os arranjos maravilhosos das orquestras e conjuntos que se apresentavam em festivais...
Se colocarmos, como índios, nossos ouvidos no chão, vamos sentir a explosão de pés pulando no maracanãzinho ou no Teatro Record, quando se apresentavam Chico, Nara, Mpb-4, Vandré, Edu Lobo – por onde anda? – Gil, Caetano, enfim...todos nascidos da perseguição. A arte não sucumbiu aos cortes em letras, às prisões por discordar do óbvio, à censura até antes de conceber as obras artísticas...Sérgio Ricardo chegou a quebrar seu violão, atirando-o e a seu Beto bom de bola – mas que era péssimo – na platéia irrascível. Vimos Tom e Chico serem literalmente vaiados pela platéia. Não digo que Sabiá seja uma composição excelente, mas nem o respeito por aqueles monstros foi capaz de impedir que a revolta do povo, naquele lugar, se manifestasse contra o elitismo e contra a repressão. Sabiá pagou o pato. Talvez porque nos dois havia asas e as do povo estavam cortadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário