
Cipó de aroeira dói pra burro!!! Lembrei-me disso quando falava com um garçon que me servia numa churrascaria nesta semana. Perguntei-lhe de onde era. Ele era de Campina Grande de um lugar chamado Aroeira. Falei-lhe que o cipó dessa árvore, que dava título ao lugar de onde vinha, quando usado para bater em alguém, doia que só ele! E complementei que sabia disso por causa de uma música de Geraldo Vandré durante um festival dos anos 60. Vandré bradava para uma platéia repleta de estudantes: “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”. Essa canção falava da revolta contra um sistema político que ainda ficaria intacto durante 20 anos neste país. Vandré enlouqueceu durante esse processo e chegou a gravar uma música chamada “Fabiana” em homenagem à Força Aérea Brasileira. O garçon me olhava estático, sem gestos, estupefato, perplexo...O que estava ouvindo transpassara-lhe a memória e não achou nada em sua bagagem de vida. Percebi sua reação e mudei de assunto. A carne estava deliciosa e pedí-lhe uma gostosa chuleta, enquanto os anos de chumbo voltavam para o escaninho do tempo,sem réplicas, sem ecos, sem rodízios... Na minha mente, os compassos da música queriam prosseguir vivos, altaneiros, sabendo que para nada foram concebidos, sabendo que não valeu a profecia de um violeiro, que cantava sua utopia para um papo, nesses dias, em uma mesa cheia de carne.
“Vim de longe vou mais longe, quem tem fé vai me esperar
Escrevendo numa conta pra junto a gente cobrar
No dia que já vem vindo
Que esse mundo vai virar noite e dia vem de longe
Branco e preto a trabalhar e o dono senhor de tudo
Sentado mandando dar e a gente fazendo conta
Pro dia que vai chegar
Marinheiro, marinheiro quero ver você no mar
Eu também sou marinheiro eu também sei governar
Madeira de dar em doido vai descer até quebrar
É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.”
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