terça-feira, 6 de janeiro de 2009

formiga e cigarra...


Havia uma música antiga que dizia: “formiga que quer se perder cria asa...”. Nunca entendi bem esse verso, até porque, além de plasticamente impossível de acontecer, nada tem a ver com a índole desse bichinho negro e rápido, que nunca se perde, porque caminha em bando. Sempre tive uma certa admiração pela formiga. Primeiramente, pelo seu tamanho que não a impede de prosseguir para alcançar suas metas. Depois, a sua visão de conjunto, sempre andando em grupos, numa linha contínua, tendo à frente o seu objetivo. Há muitas histórias sobre as formigas. A mais famosa é uma fábula escrita por “La Fontaine” que põe em paralelo a vida desses animaizinhos com a cigarra - cantadeira e “preguiçosa”. Em sua maioria, as histórias que parafraseiam a famosa fábula tendem a expor a cigarra como imprevidente, sem noção de planejamento para a sua vida, só se preocupando em viver intensamente no verão, enquanto que a formiga sempre está formulando estratégias, trabalhando fortemente no verão para formar estoques de alimentos, a fim de encarar com traqüilidade os rigores do inverno. La Fontaine devia detestar o canto das cigarras ou então, como Beethoven, era inteiramente surdo sem ter o dom deste. Pois não é que eu estava nesta manhã tomando meu café costumeiro quando ouço uma cigarra cantar fortemente, anunciando o verão. O canto era lindo, persistente, com sua linguagem que passou pelos séculos, como que dizendo a todos: “vem aí o calor!! vem aí o calor!!” Pensei de novo nas formigas, e me lembrei que elas nos obrigam a contratar serviços de dedetização para pôr fim a suas incursões pelas paredes, formando buracos entre ladrilhos do banheiro e da cozinha. Fiquei então refletindo nisso e revi meu afeto por elas. Sentei-me ao computador para escrever, e quando cheguei nesta linha concluí que La Fontaine deveria ser um capataz de fazenda, com a visão mecanicista de mundo, caráter autoritário, ardoroso defensor do trabalho repetitivo, estressante e escravo - um verdadeiro déspota. Lembrei-me então de uma historinha que cria uma fábula invertida. Nessa fábula apócrifa, a cigarra vai visitar a formiga durante o inverno, toda agasalhada com um casaco maravilhoso de vison. À porta do formigueiro, a cigarra sai de uma Ferrari vermelha, linda, estonteante. A formiga-porteira pergunta-lhe:-ué, para onde vais assim?-vou para Paris, visitar o túmulo de La Fontaine para cagar em cima dele.-a formiga cora de indignação e diz para a cigarra: -leva esse giz e escreve sobre a lápide daquele filho da puta para ele tomar...Moral da história do autor: “trabalhar como a formiga só traz benefícios na fábula de La Fontaine”. Como estás trabalhando?

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