domingo, 25 de janeiro de 2009

meio-fio...

Fui pelo meio-fio, contando os passos que davam na sua direção. Não havia muita gente vindo em sentido contrário. Fazia muito frio, todos estavam agasalhados, mas eu estava com uma roupa para o verão e sentia o vento resvalar em minha pele. Tive que colocar minhas mãos nos bolsos para poder resistir melhor à baixa temperatura. O vento jogava-se contra o meu corpo, talvez querendo me impedir de procurar você, mas eu segui adiante, sem vontade de parar ou retroceder. Você era o meu objetivo. Havia decidido lhe encontrar fosse difícil ou não. As pessoas achavam estranho a forma com que me conduzia sobre a calçada, já que ia caminhando pela extremidade, às vezes tendo que me equilibrar para não colocar meu pé na rua. Virei na segunda esquina, sem ter muita certeza que tomava a melhor decisão. Fui sem vacilar, seguindo meu instinto de perseguidor.
A rua e a calçada eram bem estreitas. Havia muitas casas do outro lado, como antes, numa concentração logo no início da caminhada e depois quase uns trezentos metros de terreno baldio com mato alto, também como antes. Fui caminhando pelo meio-fio, mania de criança, quando tinha a convicção de que chegaria mais rápido, não me desviando daquela linha reta. Ledo engano, tantas linhas pela vida me obrigaram a enveredar por caminhos sinuosos, mais longos, desnivelados e errantes. Onde estaria você se há tanto tempo não passava por ali? Onde meus passos iriam dar depois de anos não mais lhe encontrar? Lembrei-me da loucura de ter-lhe visto pela primeira vez. Lembrei-me da loucura de ter me despedido de você pela última vez. Lembrei-me afinal da insanidade de perdermos o contato mesmo sabendo nossos endereços, nossos mais frequentes caminhos...Mas a maior tristeza foi a de perseguir sua imagem, uma aura perdida pelo tempo...As ruas já não podem mais conter a heresia de ser você o meu grande mistério. O inesperado não me surpreende mais em sonhos loucos e inebriantes. A vontade de ter você já se foi na voragem dos dias que nos separaram para sempre. Sei que agora essa perseguição é mais mania de não esquecer você, é a vontade de sempre caminhar em linha reta, onde desafio a mim mesmo em traçados dessa rua perdida...

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