
À noite, na década de 50, o que faziam os moradores do subúrbio? Será que se contentavam com o barulho dos bondes e os pregões dos garrafeiros, leiteiros, doceiros e padeiros? O que faziam sem a televisão às 19 horas de um domingo? Imagino o rádio ligado no programa de Paulo Gracindo, ou de César de Alencar. Imagino as badaladas do programa do saudoso Chico Alves. Todos os dias esses moradores sintonizavam a Rádio Nacional e alí estavam as novelas e a voz linda de Roberto Faissal. Ao cair da tarde era a vez do "O anjo" e de "Jerônimo, o herói do sertão". No mais, conversas simples e a leitura dos jornais: Última-Hora, Correio da Manhã, O Jornal, Tribuna da Imprensa (com Carlos Lacerda atirando em todas as direções). Não havia tráfico e a morte bizarra de alguém era alvo de um pequeno espaço nas páginas centrais do jornal. Chegar de madrugada em casa contava apenas com o barulho dos grilos, com o latido dos cães e com a preocupação de abrir a porta com cuidado para não acordar ninguém. Não havia mendigos e ninguém cheirando. De vez em quando um guarda-noturno apitava e outro respondia para dizer que estavam ali e alertas. Mas era um ledo engano, porque nem batedor de carteiras se atreveria a causar dano a alguém com a presença do guarda. Era um respeito acaciano e todos viviam bem, obrigado.
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