
Acabei de ler “Quincas Borba”, da fase áurea de Machado. Não sei, mas o “bruxo” do Cosme Velho sempre me decepciona nos finais de seus romances. Interessante notar que os argumentos são muito bem elaborados, formando teias que se comunicam perfeitamente, mas me parece que o acabamento da obra busca sempre privilegiar o óbvio. Não gostei da morte de Rubião nem do cão de Quincas Borba, que tem o nome de seu ex-dono. Tive a impressão que Rubião iria reverter um pouco a sua loucura, e que Machado iria revelar o uso ilícito da fortuna do mineiro de Barbacena pelo seu estranho amigo Palha. Mas ficou somente na expectativa. Houve excesso no tom amoral que permeou os diálogos de Sofia com seu marido e seus amigos. Foi um desenrolar punitivo para quem não estava preparado para lidar com o dinheiro, com o ambiente hipócrita da sociedade abastada e com um amor tresloucado e inútil que Rubião nutria por Sofia e que o levou à insanidade. Este ano é o terceiro livro de Machado que releio. Estava nos meus planos reler “Dom Casmurro”, mas a minissérie da globo tirou-me a vontade. “Memórias póstumas de Brás Cubas” também fazia parte da lista, mas caí na esparrela de ver o filme e, como fiquei decepcionado com a concepção cinéfila, transfiro para o próximo ano esse projeto. Estou de posse de um livro muito interessante chamado: “Meu adorado Pedro” da historiadora Vera Moll. Corro ainda pelas primeira páginas, e posso pressentir que tudo o que aprendi sobre o imperador e seu caráter carece de uma revisão vigorosa. Tenho me posto afastado da Tv. É um alívio pensar pelo ler. O refletir sobre o ver te leva a muitos erros. Na leitura há o ir e vir. Há o parar, sentir, fechar o livro, novamente abrir. A tv é soberba em si mesma. O filme é indutivo, o livro é uma caixa de pandora. E depende de nós aceitarmos ou rejeitarmos a proposta de quem o escreve. Há uma certa reinserção de nossas idéias naquilo que estamos lendo e refletindo. Concordamos com o final ou não, e fazemos o que queremos com ele. Podemos levar para qualquer lugar as situações que lá estão. Um tal João que tenta iludir uma tal Maria estão submetidos a um certo reinado que possui o leitor. Este abre o livro quando quer e o fecha quando quer. Podemos deixar aquele pilantra estático,sem poder dar seu último golpe, com o livro aberto naquela folha, mas que carece de nossa leitura para poder se concretizar o crime e para atribuir-lhe a vontade de efetuar o seu delito. Essa a beleza de ler, esse é o exercício do poder maior, de até punir o escritor quando nos tenta introduzir conceitos dos quais não encontram eco em nosso repertório. Fechar o livro, deixá-lo empoeirar, é o corolário que oferecemos a quem, no mínimo, não escreveu pensando no leitor.
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