terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Quando eu tinha 17 anos...


“When I was seventeen...”inicia Sinatra a sua linda canção* que marcou toda uma geração. Os olhos azuis eram incomparáveis. Daqui a alguns anos serão muito poucos os que poderão repetir os versos dessa música. Por que digo isto? Simplesmente porque estamos vivendo momentos delicados, interessantes e complexos da história humana. Ao mesmo tempo em que há um medo generalizado, há uma expectativa de que se acabe esse descompasso de apreensão e de mistério. Para muitos jovens hoje, suas âncoras começam a ter fadiga de material, uma espécie de oxidação, que vai pouco-a-pouco destruindo sua forma. Para onde irão esses navios sem esperança?
Quando eu tinha 17 anos havia prados verdes em meus olhos. Olhava para frente e determinava que caminho a tomar, mesmo sabendo que nem todos tinham sido abertos pela passagem de homens, mas por um simples burrinho que criou um friso na terra e os homens, sem saber, seguiram aquele rumo. Mas nunca me neguei errar, sempre vislumbrei outras formas de estar no futuro e em todas elas eu estava lá. Tive a audácia de voltar atrás mesmo quando todos diziam para não fazê-lo. Tive a audácia de pular obstáculos, mesmo quando todos diziam que eles eram intransponíveis. Uma coisa eu sei: eu andei no meu caminho, e muitas vezes joguei minha firme âncora para suprir o meu barco e a recolhi quando vi que o mar estava com muitos peixes e suas vagas ficavam calmas e silenciosas.
“It was a very good year”...cantava Francis Albert e eu posso hoje compactuar dessa mesma expressão lírica. Foram bons tempos, muito bons tempos. Nasci no final da II Grande Guerra, tempo de transformação econômico-social, tempo de personalidades ilustres, de homens de caráter e outros de não muito, mas homens inesquecíveis. Hoje eu olho para o mundo inteiro e não consigo ver ninguém semelhante. Da minha própria terra, qual seria minha escolha para dar um exemplo hoje?
Neste dia, Barack Obama tomou posse na presidência dos EUA. Todos os jornalistas a ele se referiram como o primeiro negro na história etc.etc. É lamentável essa cantilena nesses tempos onde a sociedade quer acabar com cores de pele, diferenças raciais e étnicas formando uma só espécie: a do ser humano.
Houve um empobrecimento de idéias e de talentos, embora o discurso pareça que é novo e está mudado. Essa falsa impressão de mudança foi o tema da campanha de Obama. Ouvi seu discurso de posse – foi tímido, retórico e não trouxe novidades.
Nos dias atuais a forma tem mais importância do que o conteúdo. Ontem terminei de ler uma revista de minha área de formação profissional e as expressões são muito interessantes: jovens da linha Y, caça talentos ou hadhunters, mundo corporativo, expertises...Parece que na leitura desse magazine há um ar de sucesso, superação, abundância, mas, de vez em quando, leio, nessa mesma revista, reportagens sobre executivos (mulheres e homens) que abriram mão de seus pomposos salários, pagos em dólares, para uma nova situação empregatícia, com salários mais modestos, a fim de terem tempo para se dedicarem mais a seus filhos. Como lidar com isso?
Percebe-se com muita clareza que estamos vivendo um mundo de faz-de-conta, sem uma base de valores permanentes e sólidos, formando pessoas focadas somente em MBA, para depois viverem um tormento de mais de 14 horas de trabalho, chegando à maturidade de suas vidas repletas de enfermidades físicas e mentais.
Essa queda de qualidade se percebe na maioria das atividades humanas: No tocante à inovação, percebo que não está havendo passagem de bastão entre artistas e intelectuais do passado para o presente. Quando se trata de elencarmos alguns bons artistas da música popular brasileira, penso em eleger um, e os que vêm à mente são os mesmos. Os mais novos já estão na casa dos 40.
No terreno da literatura, posso citar um escritor da qualidade de Luis Vilela, que, quando li seu primeiro livro de contos na década de 60 eu pensei: acabou o gênero conto! Exageros à parte, e aí? Quem chegou de lá para cá com todo aquele deslumbramento e estardalhaço?
Quem é hoje o melhor crítico de teatro? Continua a mesma Bárbara Heliodora. O melhor cronista? Xexéo? Não sei. Veríssimo, talvez? Por onde andam suas faixas etáreas?
Qual o melhor biógrafo de hoje? Sérgio Cabral – com quantos anos? Ruy Castro? – nos 50 e pouco.
Às vezes penso, com perdão dos meus jovens amigos, que a juventude sumiu. Quando tinha meus quinze anos, era praticamente obrigado a ler “A Tribuna da Imprensa”, à época de Carlos Lacerda, porque meu pai era fã de carteirinha desse jornalista e esse jornal era o único que entrava em minha casa. Eu detestava esse vespertino, porque gostava mesmo era da linha ideológica de “Última Hora”, do saudoso Samuel Wainer. Mas nunca neguei o espanto que me causavam a inteligência e a cultura de Lacerda. A defesa que fazia de suas teses e sua apologia ao então liberalismo eram claras e respeitáveis. Qual o político hoje que tem essa credibilidade? Onde afinal estão os jornais do Rio de Janeiro? Foram dilacerados. Há uns dois meses, a Tribuna da Imprensa, sob a direção de Hélio Fernandes, teve que interromper suas atividades por problemas financeiros.
Daqui a dezenas de anos será que o jovem de agora, se não mudar o que deve ser mudado, poderá cantar os versos de Sinatra?

“When I was seventeen
It was a very good year
It was a very good year for small town girls
And soft summer nights
Wed hide from the lights
On the village green
When I was seventeen…”

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