
“Vozes veladas, volúpias de violões, vozes veladas...”. Vai por aí o exemplo mais conhecido da figura de linguagem denominada de aliteração. Lembro-me que tive que memorizar os versos de Cruz e Souza, fantástico catarinense, escritor negro, que viveu pouco, mas deixou seus textos para as gerações vindouras. Tenho notado que nossa vida é uma seqüência de aliterações. São movimentos que se cruzam, se perdem, se esfumam, produzindo ações simultâneas...Como a música, na sua acepção bela, que representa uma sucessão de sons em equilíbrio e vida. Até as questões dissonantes marcham em sincronia. Ouvir Ravel, por exemplo, requer a paciência da profundidade. "Bolero" é como uma semente que vai morrendo, morrendo, vai se transformando em raizes cada vez mais densas e, chegando à superfície, vai construindo a planta que finalmente produz seu esperado fruto. Na pauta, que é sua arquitetura, os sons vão se sucedendo, vão se aproximando, vão sendo cada vez mais claros até chegarem ao seu clímax majestoso e derradeiro. Os nossos dias requerem essa apreensão pelos nossos sentidos. Precisamos dar-lhes exercício, ora por ouvir o que habitualmente não percebemos, ora pelo sentir, quando nos abstraímos da realidade, ora pelo cheirar os aromas diversos do ambiente em que estamos. Tudo isso transita em nossa mente fazendo tremer sentimentos, memórias que estavam submersas, lembranças de fatos que pensávamos esquecidos, mas que precisavam ser ativados por esse fenômeno inexplicável que é a vida, recebendo influências do meio externo através das entradas de nosso corpo. Somando-se os dias com suas experiências, isso nos remete à reflexão do poeta, que foi acordado por seresteiros, altas horas da noite no melhor estilo seresteiro. O poeta ainda persiste na apreciação daquilo que ouve: “...vagam nos velhos vórtices velados dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.” Numa visão mais romântica, os versos são frios, concretamente frios, como uma construção imponente de pedra, que não lembra aconchego nem refúgio, mas nos induz à força do redemoinho que processa ventos sobre si mesmo. Assim é o curso de nossa existência, onde se repetem as situações, criam-se novas que se juntam àquelas, numa dialética que é a própria vida, imitando a cada dia o maior espetáculo de Deus.
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